Mariane Fontes MD

HPV em homens: sintomas ignorados, riscos silenciosos e quando procurar avaliação médica

HPV em homens: sintomas ignorados, riscos silenciosos e quando procurar avaliação médica

O HPV em homens é mais comum do que muita gente imagina. E o pior: muitos portadores nunca têm sintomas, mas ainda assim podem desenvolver complicações graves, incluindo cânceres de pênis, ânus e orofaríngeo quando a infecção por tipos de alto risco persiste por anos. 

Esses fatores (ou seja, a progressão silenciosa e assintomática somada ao potencial carcinogênico do vírus e à sua alta transmissibilidade) geram um quadro bem complexo e perigoso, que favorece o diagnóstico tardio.

Neste texto, vou explicar o que é o HPV em homens, como ele se transmite, quais sinais não devem ser ignorados e por que avaliar precocemente com especialista pode ser decisivo para a prevenção e a saúde de longo prazo.

O que é o HPV?

O HPV (papilomavírus humano) é um grupo de mais de 200 tipos de vírus que infectam a pele e as mucosas, principalmente em regiões genitais, anal e orofaríngea.¹ Em homens, boa parte das infecções é assintomática, ou seja, o vírus pode estar presente sem causar lesões visíveis.¹⁻⁷

Os tipos de HPV são classificados em:

Como ocorre a transmissão?

O principal modo de transmissão do HPV em homens é sexual, por contato pele‑a‑pele da região genital, anal ou oral.¹-⁷ É muito importante notar que, ao contrário do que se imagina, a infecção pode ocorrer mesmo sem ejaculação, e o vírus pode ser transmitido por parceiros assintomáticos.¹-⁷

Portanto, os fatores que aumentam o risco incluem:¹-⁷

  • relações sexuais sem a proteção do preservativo;
  • vários parceiros sexuais ao longo da vida;
  • coexistência com outras infecções sexualmente transmissíveis e imunossupressão.

E aqui vai um dado interessante: a infecção é tão frequente que estudos mostram que cerca de um terço dos homens no mundo podem ser portadores de HPV em algum momento da vida, mesmo sem nunca terem notado verrugas ou feridas.8

Quais são os sintomas mais comuns?

Como você viu, é possível que os homens tenham o vírus e sequer saibam disso, graças à ausência de sintomas que acompanham a contaminação com uma certa frequência. No entanto, há sinais que podem aparecer e que não podem ser ignorados. Continue para conhecê-los! 

Lesões genitais discretas e ignoradas

A forma mais “clássica” de sintoma de HPV em homens são as verrugas genitais (condilomas acuminados), que podem aparecer na glande, corpo do pênis, bolsa escrotal ou região anal.3,9

De modo geral, elas são elevadas, irregulares, às vezes com aspecto de “couve‑flor” e podem ser únicas ou múltiplas.3,9

Mesmo assim, muitos homens não percebem essas lesões porque:

  • são pequenas ou aparecem em áreas de difícil visualização (como sob o prepúcio ou na região anal);
  • evoluem muito lentamente, sendo confundidas com marcas comuns da pele.

Feridas que não cicatrizam e alterações na glande ou prepúcio

Além das verrugas, algumas manifestações de HPV de alto risco podem se apresentar como:3,9

  • pequenas elevações ou manchas endurecidas na glande ou prepúcio;
  • lesões que sangram com facilidade ou coçam;
  • feridas que não cicatrizam espontaneamente, persistindo por semanas ou meses.

Essas alterações, ainda que discretas, merecem investigação, pois podem corresponder a lesões pré‑cancerígenas nas mucosas genitais. Elas também podem não significar nada mas, na dúvida, é sempre bom conferir! 

Nódulos na boca, garganta ou pescoço como possível manifestação associada

Por fim, o HPV também pode infectar a mucosa oral e orofaríngea, especialmente tipo 16, e está associado a:10

  • lesões verrucosas na boca ou língua;
  • nódulos endurecidos na mucosa bucal ou orofaríngea;.
  • projeções de tecido ou áreas avermelhadas/anulares que não desaparecem.

Por conta disso, muitas vezes, as lesões podem ser identificadas apenas em consultas com o dentista. 

E não é só isso: os nódulos persistentes na região do pescoço (gânglios linfáticos) podem, em alguns casos, ser um sinal de um câncer de orofaringe associado ao HPV.11

É claro que tal sintoma também pode estar associado a vários outros tipos de problemas de saúde. Por isso, novamente, uma consulta especializada é indispensável para averiguar bem o caso.

Como ocorre a prevalência do HPV em homens e a taxa elevada de infecção ao longo da vida?

Como ocorre a prevalência do HPV em homens e a taxa elevada de infecção ao longo da vida?

Estudos mostram que a prevalência de HPV em homens pode chegar a cerca de 30% na população geral, com pico em adultos sexualmente ativos.8 A maioria das infecções é transiente, ou seja, o sistema imunológico consegue eliminar o vírus sem necessidade de tratamento específico.

Mesmo assim, muitos casos permanecem sem diagnóstico por:

  • ausência de sintomas visíveis;
  • falta de rotina de exame físico genital ou consulta preventiva com urologia ou uro‑oncologia;
  • tabu ou vergonha em examinar partes íntimas ou procurar médico.

Como não existe um “papanicolau masculino” de rotina em ampla escala, o diagnóstico do HPV em homens muitas vezes só aparece quando já há lesão clínica ou complicações. E é justamente isso que queremos evitar! 

Qual é a relação entre HPV de alto risco e o câncer?

O HPV de alto risco é um importante fator carcinogênico, ou seja, com possibilidade de causar um câncer. Mas é importante ressaltar que nem toda infecção evolui para câncer. O risco aumenta quando:

  • o tipo viral é oncogênico (principalmente 16, 18, 31, 33);
  • a infecção persiste por anos, sem controle imunológico;
  • há outros fatores de risco associados ao estilo de vida daquele paciente, como tabagismo, consumo de álcool e baixa higiene genital.

Certo, mas… quais são os tipos de câncer que podem ocorrer? Continue a leitura para conferir a lista com os mais comuns! 

Câncer de pênis

Entre 30% e 40% dos casos de câncer de pênis apresentam associação com HPV, em especial o tipo 16.12 Estudos mostram que lesões pré‑cancerígenas (como carcinoma in situ ou displasias) frequentemente trazem DNA do HPV em sua composição, reforçando o papel do vírus na carcinogênese peniana.12

Câncer anal 

O HPV anal pode produzir lesões pré‑cancerígenas (neoplasia intraepitelial anal) que, em parte dos casos, evoluem para câncer invasivo se não forem detectadas e tratadas.13

Câncer orofaríngeo

O HPV orofaríngeo, em especial o tipo 16, é responsável por uma parcela relevante dos cânceres de orofaringe (nas amígdalas, por exemplo, e na base da língua), que têm aumentado nas últimas décadas.¹⁰  

Qual é a diferença entre cânceres associados ao HPV e câncer de testículo?

Qual é a diferença entre cânceres associados ao HPV e câncer de testículo?

Outro tipo de câncer relativamente comum, especialmente entre os homens mais jovens, é o de testículo. Mas será que ele tem alguma relação com a infecção pelo vírus HPV?

A resposta é: não!14,15

O câncer de testículo é um tumor originário da célula germinativa do testículo, com etiologia multifatorial, ou seja, que pode estar associada a vários fatores. Os principais são a genética, fatores hormonais e a criptorquidia, nome dado à condição na qual o testículo não desce para a bolsa escrotal.14

Os sintomas mais comuns desse câncer são:14,16

  • nódulo endurecido e indolor no testículo;
  • aumento de volume ou sensação de peso na bolsa escrotal.

Ou seja, tanto o câncer de pênis quanto o de testículo afetam a genital masculina, mas têm origens biológicas diferentes e diferentes marcadores de risco.14

Quais são os critérios atuais para vacinação masculina?

A boa notícia é que o vírus HPV pode ser prevenido com a realização de vacinação. A vacina contra o HPV é recomendada para:

  • meninos e meninas a partir de 9 anos até os 14;3
  • jovens e adultos até 45 anos, quando ainda não houve exposição plena a todos os tipos de HPV cobertos pela vacinação.3

E quais são os tipos? No geral, as vacinas protegem contra os tipos de baixo risco responsáveis por grande parte das verrugas genitais (6 e 11) e tipos de alto risco (por exemplo, 16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58, entre outros).

A avaliação com uro‑oncologista ou infectologista pode orientar se a vacina ainda oferece benefício real individualizado! 

Quando procurar ajuda médica?

Como você viu, muitos sinais de HPV em homens são silenciosos, mas outros são bem perceptíveis e não devem ser ignorados. É hora de procurar avaliação especializada quando houver:1-7

  • verrugas ou elevações na glande, corpo do pênis ou região anal.
  • lesões que sangram com facilidade, coçam muito ou alteram a textura da pele.
  • feridas que não cicatrizam após algumas semanas, mesmo sem dor intensa.
  • nódulos ou lesões persistentes na boca, língua ou amígdalas.
  • dor de garganta prolongada ou dificuldade para engolir.
  • nódulo endurecido na região do pescoço que não desaparece em algumas semanas.

Sendo assim, o HPV em homens é um dos vírus sexualmente transmissíveis mais comuns do mundo, mas continua subestimado por medo, vergonha ou falta de informação. Muitos casos são assintomáticos, mas isso não elimina o risco de complicações graves, como câncer de pênis, anal e orofaríngeo. Por isso, toda atenção vale nesses casos! 

Se você (ou alguém próximo) notou feridas no pênis, nódulos na boca ou pescoço que não somem, vale marcar uma avaliação médica para analisar o que pode estar por trás desses sinais.

Dra. Mariane Fontes
Uro-oncologista – Especialista em uro-oncologia – Uro-oncologista Rio de Janeiro (Zona Sul)