Mariane Fontes MD

Oncogeriatria: como a avaliação funcional muda decisões no tratamento do câncer

Oncogeriatria: como a avaliação funcional muda decisões no tratamento do câncer

Câncer e idade avançada são pontos que até podem andar  juntos, mas o número de anos de um paciente diz muito menos do que se imagina sobre como ele vai responder a um tratamento oncológico. 

É exatamente esse o ponto de partida da oncogeriatria, uma área que cruza oncologia e geriatria para responder às seguintes perguntas: esse paciente está preparado para o tratamento que a doença exige? E quais são as melhores alternativas para ajudá-lo nesse momento?

Vamos entender mais sobre o assunto? Continue a leitura! 

O que é oncogeriatria?

A oncogeriatria é a área da Medicina dedicada a avaliar e tratar pacientes idosos com câncer levando em conta não só o tumor, mas também o estado funcional, cognitivo, nutricional e social da pessoa. Ela usa como ferramenta central a Avaliação Geriátrica Ampla, um exame multidimensional que vai muito além da consulta oncológica mais comum.

Essa avaliação consegue identificar problemas relevantes em muitos dos pacientes idosos com câncer, problemas que passariam batido em uma consulta oncológica padrão, focada apenas no tumor e nos exames de imagem.¹ 

É por isso que, no geral, há a recomendação da avaliação geriátrica como parte do cuidado oncológico em pacientes acima de 65 ou 70 anos.

O que é oncogeriatria?

Qual é a diferença entre idade cronológica e funcional?

Aqui está o ponto mais importante de toda a nossa conversa. A idade cronológica é só o número de anos vividos. Já a idade funcional é a capacidade real do corpo de tolerar um tratamento, e essas duas medidas não andam sempre juntas.

Vamos a um exemplo? Um paciente de 70 anos pode ter uma reserva funcional equivalente à de alguém dez anos mais jovem, enquanto outro, com a mesma idade, pode já apresentar fragilidade significativa. 

De modo geral, uma boa avaliação geriátrica estruturada é superior ao “chute clínico” para nos ajudar a entender como o paciente vai se adaptar aos tratamentos propostos a ele.²

Como avaliar a fragilidade e  autonomia?

A avaliação de fragilidade em oncogeriatria começa por instrumentos de triagem rápidos, antes de qualquer avaliação mais extensa. 

O questionário G8 é um dos instrumentos mais usados com essa função. Ele foi desenvolvido para atuar como ferramenta de triagem inicial.³ 

Uma das suas principais vantagens é a alta sensibilidade, ou seja, poucos pacientes que realmente precisariam de avaliação geriátrica passam despercebidos a partir da implementação dessa técnica.³

Quando os tratamentos precisam ser ajustados?

Quando os tratamentos precisam ser ajustados?

O ajuste entra em cena quando a avaliação geriátrica identifica as vulnerabilidades que aumentam o risco de complicações graves. Isso pode significar reduzir a dose de quimioterapia, trocar o esquema terapêutico por um com perfil de toxicidade mais favorável, antecipar suporte nutricional ou fisioterápico antes do início do tratamento, ou até reconsiderar a indicação cirúrgica.

No geral, a avaliação geriátrica pode levar à mudança da estratégia de tratamento inicialmente planejada em boa parte dos pacientes idosos com câncer.⁴ Ou seja: vale a pena investir nesse cuidado.

Quais são os critérios para cirurgia, quimioterapia e imunoterapia?

Para a cirurgia, embora a literatura médica ainda busque evidências mais robustas sobre o impacto direto nas complicações pós-operatórias, a avaliação geriátrica já se mostra uma aliada importante para orientar a escolha da abordagem cirúrgica e intensificar o suporte multidisciplinar pré e pós-operatório.⁵ 

Ou seja: ainda há caminho para aprendermos mais sobre o assunto, mas ele já tem mostrado ótimos resultados!

Para quimioterapia, o CARG e o G8 orientam a escolha entre dose plena, dose reduzida ou esquemas alternativos com menos toxicidade hematológica. Inclusive, incorporar a avaliação geriátrica ao planejamento do tratamento reduz em cerca de 22% o risco relativo de toxicidade relacionada ao tratamento.⁶

Já para imunoterapia, o cenário ainda está em construção. De forma geral, esses medicamentos costumam ser melhor tolerados do que a quimioterapia tradicional em pacientes idosos, mas a avaliação funcional continua relevante para prever a capacidade do paciente de reconhecer e relatar efeitos adversos imunomediados a tempo, e para definir a frequência ideal de acompanhamento clínico.

Qual é o impacto da avaliação geriátrica nos desfechos clínicos?

Oncogeriatria - Qual é o impacto da avaliação geriátrica nos desfechos clínicos?

Os ganhos mais consistentes da oncogeriatria aparecem em três frentes. A primeira é a redução de toxicidade grave ao tratamento, confirmada em revisões sistemáticas de estudos randomizados. A segunda é a maior taxa de conclusão do tratamento planejado, sem necessidade de interrupções precoces. A terceira é a melhora da qualidade de vida relatada pelo próprio paciente.

Vale destacar um ponto importante, até agora, os estudos não mostraram diferença significativa de sobrevida global entre pacientes avaliados pela oncogeriatria e os que seguiram o cuidado padrão.

Isso, no entanto, não diminui o valor da abordagem. Significa que o benefício da oncogeriatria está, sobretudo, em tratar melhor e com menos sofrimento, e não necessariamente em prolongar a vida por si só, o que já é um ganho enorme para esse perfil de paciente!

Como você viu ao longo deste texto, a oncogeriatria não é um luxo nem uma etapa burocrática extra no tratamento do câncer. Ela é, na prática, a diferença entre tratar um número (a idade) e tratar uma pessoa real, com suas limitações e suas reservas físicas específicas.

Por isso, se você ou alguém da sua família está enfrentando um diagnóstico oncológico depois dos 65 ou 70 anos, vale a pena perguntar diretamente ao médico se uma avaliação de oncogeriatria já foi considerada. Agende uma consulta especializada!